A Gata Startupeira




Cindy parou a bicicleta, tocou a campainha, tirou a mochila e limpou o suor do rosto. A cliente abriu a porta e ela entrou com a bicicleta, pronta pra mais um dia de faxina. Ao final da tarde foi informada que sua diária já havia sido depositada na conta da Tremaine Facilities, nome chique para uma empresa de serviços de limpeza. Foi para casa passar mais um final de semana sem dinheiro.


Segunda de manhã, reunião de distribuição dos trabalhos da semana. Como sempre, todo o trabalho pesado foi designado para ela e os trabalhos mais tranquilos para as antipáticas Anastácia e Gisela, filhas da dona da empresa.


Enquanto estava no almoxarifado abastecendo o estoque da sua caixa de material de limpeza, Cindy ouviu as duas comentando de um Startup Weekend que ia acontecer dali um mês, um evento mundial que reunia vários tipos de pessoas que gostariam de abrir suas próprias empresas.


A diretora (e mãe das duas), de passagem, comentou que elas iriam e que seria a chance de melhorarem ainda mais na vida. Viu que Cindy estava olhando, riu e perguntou:


- Tá olhando o que? Você não tem nem nunca terá nível para ter uma empresa.


Cindy abaixou a cabeça, pegou a caixa e foi trabalhar. Ela sabia que Elaine Tremaine não se lembrava dela, pois era muito pequena quando seus pais morreram. Mas apesar de pequena, já tinha aprendido inglês e o gosto por ler. Por não ter outra família, Cindy ficou sob a guarda do estado e Elaine Tremaine comprou a empresa que era de seu pai por uma bagatela. Ao fazer 18 anos e deixar o abrigo onde morava, Cindy usou esse pequeno dinheirinho para alugar um quarto e comprar um computador e uma bicicleta. O destino quis que fosse trabalhar exatamente na empresa em que deveria ser herdeira.


Naquela noite Cindy chegou em casa, tomou um banho, ligou o computador e continuou trabalhando no seu plano de negócio. Ela tinha feito um amigo hindu em um fórum sobre bicicletas em uma rede social, e Ravi era um dabbawalla, um entregador de marmitas em Mumbai. Ele havia contado a Cindy sobre o sistema utilizado, cem por cento manual, e Cindy havia ficado bem interessada. Pensava em implantar alguma coisa assim no Brasil e queria apresentar sua ideia na Startup Weekend.


Mas não tinha muita noção de como fazer isso. Estava bastante desanimada e no dia seguinte não aguentou: começou a chorar no meio do trabalho. Verna, a dona da casa viu e perguntou o que estava acontecendo, Cindy contou. Verna perguntou se Cindy poderia ficar um pouco depois do trabalho, ela iria ajudar.


Naquela noite Verna olhou o plano de negócio de Cindy, mostrou vários pontos de melhoria e disse que ela precisava de ajuda. Precisava chamar alguns amigos para irem como equipe. Cindy não tinha amigos que entendessem de empresa, mas chamou seus 3 melhores amigos. Verna mostrou como deveriam se comportar, ajudou a fazer um logo, um site simples, mas impecável e os treinou para fazer um pitch, aquela apresentação breve onde se mostra e vende a ideia.


No sexta-feira em que ia começar o Startup Weekend Verna ligou para Cindy e avisou: - Cindy, essa é uma primeira experiência. Vocês ainda não sabem muita coisa, seus amigos menos que você e se forem muito questionados não vão saber como responder. Portanto, faça o máximo de contatos possível, aproveite as palestras e os grupos de trabalho e depois saia.


Chegando no evento, Cindy ficou maravilhada. Conheceu uma série de pessoas interessantíssimas. Assistiu palestras incríveis. Participou de simulações. Conheceu gente que queria ajudar. E então começaram as apresentações dos pitchs. Viu de longe Anastácia e Gisela, apresentando um projeto de manicure para cachorros. Não agradou muito.


Quando chegou a sua vez, Cindy apresentou e como esperado, não resistiu às primeiras perguntas: - Mas o que você fará com todos os concorrentes que já entregam comida de carro, bicicleta, moto e patinete? Por que alguém pagaria pra receber uma marmita de casa quando nossa cultura é já levar a marmita pro trabalho?


Cindy não sabia, e percebeu que era hora de ir embora. Saiu correndo, deixando todos atônitos.

Segunda no trabalho as irmãs ridicularizaram sua ideia, mas também não tinham conseguido nada. Nos dias que se passaram, ninguém procurou Cindy. Ela percebeu que precisava seguir sozinha.


Entre as pessoas que tinha conhecido no evento estava William, um cozinheiro e Jaq e Tata, produtores agrícolas urbanos. Cindy ligou para os 3 e marcou uma reunião.


- Chamei vocês aqui porque acho que com algumas adaptações meu projeto pode ser bom para todos nós. Que tal se, em vez de entregarmos marmitas, entregássemos uma feira direto da horta na casa das pessoas? Bem mais barato que no supermercado. E, além disso, e se essa feira viesse com receitas para usar todos os ingredientes e fazer a comida de uma semana?


Todos adoraram a ideia e começaram imediatamente a trabalhar num MVP, o tal do “Produto Mínimo Viável”. No MVP clientes que moravam próximos aos sítios de Jaq ou de Tata passaram a receber os produtos semanalmente com cardápios para uma ou duas pessoas. Quem tinha família maior podia fazer duas compras ou mais.


Foi um sucesso. Em pouco tempo eles já estavam cadastrando outros produtores e mais entregadores. Conseguiram ser incubados. Como era um negócio eminentemente local, patentearam e franquearam a tecnologia para ser utilizada em qualquer grande cidade, com entregadores, produtores e cozinheiros locais.


E assim, Cindy foi feliz. No devido tempo, teve outras ideias e abriu outras startups. Nunca mais viu Elaine, Anastacia e Gisela. O Príncipe Encantado nunca fez parte desse conto de sucesso, mas Cindy acabou se casando com William, que apesar do nome não era príncipe mas cozinhava super bem!


Por : Pá Falcão

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