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A Afinidade e a Aprendizagem Continuada ao Longo da Vida

Sensível é a afinidade. E exigente, apenas de uma coisa: que as pessoas evoluam parecido. Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau, porque o que define uma afinidade é a sua existência também, depois.

Arthur D´Távola


Neste texto quero retomar a conversa sobre aprendizagem que abri em outro artigo (Aprendendo a aprender e (re)descobrir formas de Viver) aqui neste espaço. Hoje começo por um outro ponto crucial para uma aprendizagem de qualidade e transformadora, a Afinidade.


Acredito que muitos de nós, de uma forma ou de outra, estamos exaustos, levados aos nossos limites pelo contexto da pandemia que o planeta está imerso. E que, qualquer movimento que demande energia, requer um profundo sentido para que consigamos entrar em movimento. Fazer deste momento de crise um aprendizado requer energia e profundo sentido, e a afinidade é um ingrediente vital parta que esta condição propícia se instaure.


Para esta “conversa” que inicio trago algumas reflexões sobre meu processo de aprendizagem, e espero que a partilha inspire a sua investigação pessoal, e, quem sabe, identifique pontos convergentes.


Se formos procurar um significado para afinidade em um dicionário comum, encontraremos que esta palavra é originária do latim affinitate, com interpretações diversas, podendo tanto designar uma relação, semelhança ou analogia, quanto conformidade, identidade, igualdade, ou ainda uma coincidência de gostos ou de sentimentos.


Contextualizando um pouco mais um possível significado de afinidade junto à Educação Continuada ao Longo da Vida, podemos nos valer de início de uma combinação de alguns termos da definição não específica, como semelhança, coincidência de gostos e identidade.


A identificação de como aprendemos é uma boa entrada para uma reflexão mais aprofundada sobre a aprendizagem continuada. E foi justamente neste caminho reflexivo que me deparei com a relevância da afinidade em meu processo de construção do conhecimento que transcendesse o momento presente e se configurasse em algo para a vida toda.


Desta forma, minha afinidade com o tema do aprendizado é algo primordial. Se tratar-se de algo que, de alguma forma, me agrada, logicamente a aprendizagem se dará de uma forma mais fácil. A simpatia ou antipatia por alguma situação, tema ou pessoa, afeta definitivamente o quão intenso e duradouro será o aprendido.


Segundo Silva (1999), um teórico e pesquisador da transdisciplinaridade, quando se referem aos diversos Níveis de Realidade* que coexistem e formam a multidimensionalidade da realidade, citam a existência de uma zona complementar de não resistência. Este espaço privilegiado do fenômeno transdisciplinar pode ser explicado segundo os conceitos de afinidade e de pertinência.

A convergência entre os propósitos da transdisciplinaridade e da educação continuada ao longo da vida é grande, pois ambas encaram o aprendizagem como algo que vai muito além de sua dimensão técnica ou utilitarista.


A aprendizagem estaria bem mais relacionada à uma busca contínua pela inteireza do ser humano, que envolve outras motivações que as meramente trabalhistas ou materiais.

Para Silva (1999), uma zona complementar de não resistência, seria um espaço onde não existiria resistência ao esforço cognitivo do sujeito. De uma certa forma, quando me refiro aos feitos positivos da uma simpatia inicial no processo de construção de conhecimento, estou justamente reportando ao surgimento desta não resistência ao esforço cognitivo.


Segundo a Teoria Autopoiética de Maturana e Varela, é possível afirmar também que a emoção está na base de todos os processos dos seres vivos, incluindo-se aí a aprendizagem. Assim, sempre que estamos experienciando uma emoção positiva, como o amor, respeito e afinidade, nos predispomos emocional e fisicamente a uma experiência agradável, que certamente deixará marcas mais duradouras que uma experiência desagradável (onde não haja por exemplo afinidade durante o processo de aprendizagem).


*Cada nível de Realidade tem sua lógica própria. Um fenômeno de um nível só pode ser entendido segundo a lógica vigente para este nível. Por exemplo, os fenômenos do macrocosmo não podem ser entendidos utilizando-se a lógica que explica os fenômenos do microcosmos.



Na ótica da transdisciplinaridade, a afinidade é um sentimento, uma realidade não material, que está fortemente ligada à construção de domínios linguísticos comuns, a concepção de estratégias, experimentação de modelos, produção de sínteses, e outras atividades relacionadas à construção do conhecimento humano.

O que me desperta a sensação de afinidade ? Uma resposta pode ser exatamente o fato de reconhecer no “objeto” exterior a minha pessoa, algo que me é familiar, ou seja uma identificação, que pode ser mútua caso de trate de uma relação com algo vivo.


Se considerarmos tanto as recentes descobertas da física, quando à sabedoria por vezes milenar da mística, podemos pensar como Moraes (1997) quando cita que o mundo exterior e o interior são apenas dois lados de um mesmo tecido, no qual todas as forças e os eventos, todas as formas de consciência e todos os objetos estão entrelaçados numa rede inseparável de relações interdependentes (p. 108).


Na busca de uma aprendizagem que seja significativa e se configure como um aprendizado ao longo da vida, a consideração desta inter-relação entre todos os objetos potencializa e expande as possibilidades de métodos e abordagens da realidade. Tendo estas considerações em mente, poderemos dar um salto qualitativo e sair de uma concepção de educação que centra seu foco no ensino, centrando-nos sim na aprendizagem, onde a interação entre “sujeito” e “objeto” assuma um papel importante.


Falando sobre aprendizagem, Moraes (1997) coloca que esta, decorre desse jogo de assimilação e acomodação, adaptação e auto-organização, que ocorre entre o sujeito e objeto e jamais de uma ação unilateral do objeto sobre o sujeito (p. 140).


Podemos ter essa interação entre sujeito e objeto de várias situações, porém, para que se observe uma das premissas importantes da aprendizagem continuada ao longo da vida, que é o prazer em aprender, acredito que a afinidade é de grade relevância.


Levar em consideração a afinidade do sujeito da aprendizagem, tanto com seus parceiros de aprendizagem, quanto com seus objetos de pesquisa apreensão, é, na minha opinião, respeitar a natureza daquele ser humano que está no processo de construção de conhecimento.


Pessoalmente, complementando a resposta a pergunta que coloquei anteriormente, do que me desperta a sensação de afinidade, coloca ainda a grande influência da decência de da boniteza em meu despertar da afinidade. Estes dois termos, citados por Freire (2000), quando se refere a estética e a ética exigidas pelo ensinar, estão sempre presentes em meus julgamentos racionais e emocionais.


Por: Ângela Shmidit


BIBLIOGRAFIA


SILVA, D. J da O paradigma transdisciplinar: uma perspectiva metodológica para a pesquisa ambiental. http://www.cetrans.futuro.usp.br, 1999.


FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª ed revista a aumentada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.


FREIRE, P. Pedagogia da autonomia, saberes necessários à prática educativa. 8ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.


MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. 3ª ed. Campinas: Papirus, 1999. (Coleção Práxis).


O paradigma educacional eco-sistêmico: contribuição para a sua construção. Mimeo, 2000.

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