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Ambientes de aprendizagem: uma primeira aproximação

A busca de circunstâncias que permitam uma vivência concreta de teorias e ideias com as quais estamos iniciando um contato maior, é um movimento natural em todo o aprendiz. Este também é um dos grandes desafios que acompanham a história do pensamento humano e da ciência de uma forma geral, ao longo dos tempos. O desenvolvimento integrado de ambos aspectos complementares do processo cognitivo, a teoria e a prática, exige o reconhecimento dos limites de cada abordagem, sem contudo reforçar a fragmentação e o distanciamento entre aspectos teóricos e aspectos práticos.


Entender como aprendemos e como podemos contribuir para a aprendizagem do outro é um tema recorrente, que ao longo do tempo sofre mudanças, sendo afetado pelo momento socioambiental que a humanidade atravessa. Da mesma forma, as soluções para este desafio vão mudando, e dai nascem e morrem abordagens, ferramentas, teorias e práticas.

Nosso momento presente na humanidade permeia fortemente esta reflexão, inundando de incertezas, questionamentos, novos olhares e descarte de soluções que agora,mais do que nunca, não atendem a necessidade vital que é aprender e transcender limites. Estamos num momento onde não há como fugir da investigação e pesquisa ligadas à aprendizagem e construção do conhecimento. Nossos próximos passos dependem muito de buscarmos caminhos para desvelar e testar respostas para perguntas como:

  • Como poderemos criar e implementar uma proposta de aprendizagem que respeite as particularidades de cada indivíduo?

  • De que forma podemos preparar as circunstâncias para que uma construção do conhecimento realmente se efetive, seja pertinente, transformadora e transcendente?

  • Como evidenciar as interconexões que existem entre aprendizagem e a transformação de condutas e ações dos indivíduos e da sociedade, bem como seus reflexos no contexto socioambiental do planeta?

Neste universo de perguntas amplas delineadas nas linhas acima, os aportes oriundos dos ambientes de aprendizagem se constituem em pontos de referência na construção de alternativas sustentáveis. Fazem parte destes aportes grandes linhas de pensamento como: a complexidade, a transdisciplinaridade, a autopoiese e o paradigma educacional eco-sistêmico.


Parte central da forma que trabalhamos a educação, a aprendizagem e seus desdobramentos, o paradigma educacional eco-sistêmico é uma interessante contextualização ao campo da educação da complexidade, transdisciplinaridade e autopoiese elaborada por Maria Cândida Moraes (2003). Em seu trabalho, a autora contribui para o desvelar do paradigma educacional que emerge destes novos referenciais, reconhecendo a importância do olhar ecossistêmico na educação. Segundo Moraes:


Paradigma Eco-sistêmico procura legitimar a conexão entre educação e vida e colabora para a tomada de consciência de que as nossas relações fundamentais com a vida, com a natureza, com o outro e com o cosmo dependem também de nossa maneira de conhecer, de pensar, de aprender a aprender, ou seja, dependem das representações internas desenvolvidas pelos sujeitos e que se revelam nas ações que desenvolvem. Onde não se propiciam processos vitais tampouco se favorecem processos cognitivos, já que ambos estão imbricados na corporeidade humana
(in http://www.ub.edu/sentipensar/pdf/candida/pensamento_ecosistemico.pdf, p1.)

Voltando aos ambientes de aprendizagem, Moraes nos traz que a estruturação de um ambiente de aprendizagem, que acreditamos ser um lócus privilegiado para uma educação eco-sistêmica, traduz-se então na criação e transformação de circunstâncias onde o foco da atenção aponta tanto para o domínio das relações entre educadores e educandos, e destes com seu meio, como também para as relações interiores a cada sistema envolvido. O estabelecimento de um ambiente flexível, como um sistema estruturalmente aberto e organizacionalmente fechado, potencializa a fluência de processos criativos, auto-eco-organizadores, e autônomos.


Pensando em uma definição ampla, podemos dizer que:

ambientes de aprendizagem não são unicamente espaços físicos, mas sim circunstâncias, micromundos, onde tem lugar uma aprendizagem que é espontânea, contextualizada, calcada na interação do aprendiz com seu meio. Os ambientes são preparados para de estimular uma (re)construção do conhecimento, onde o educando é reconhecido em sua multidimensionalidade, respeitando a complementaridade e a trama fina entre o racional e o emocional, que rege em parceria o processo cognitivo. Trazem para o processo educativo a emergência, cooperação, mudança, interatividade e autonomia, legitimando o processo de sentipensar e, consequentemente, levando o foco da atenção para esta relação imbricada entre razão/emoção.


Dito de outra forma, os ambientes de aprendizagem, constituem-se em circunstâncias onde o processo de sentipensar é legitimado e, consequentemente, muda-se o foco da atenção para esta relação imbricada entre razão/emoção. A importância, sentido e utilidade da educação é assim reconceituada, pois neste contexto, as grandes mudanças de pensamento, raciocínio, expressão e sentimentos, são desencadeadas pela alteração do domínio de ação de cada indivíduo. Isto se consegue, segundo Maturana, transformando a emoção que está por trás de cada ato do viver. Sob este enfoque, perde o sentido a separação entre os sentimentos – o sentir, e o pensamento –o pensar, já que o processo vital ocorre num constante fluir de transformações envolvendo simultaneamente as dimensões físico-química, corporal, mental, espiritual e emocional. Da mesma forma, em um ambiente de aprendizagem espera-se estimular uma (re)construção do conhecimento, onde o educando é reconhecido em sua multidimensionalidade, respeitando a complementaridade e a trama fina entre o racional e o emocional, que rege em parceria o processo cognitivo.

Se fomos pensar no contexto da escola, os ambientes de aprendizagem constituem-se como um caminho para o resgate da vida no âmbito educacional, abrindo espaço para a amorosidade, cooperação, erro, incerteza, diversidade e a constante mudança que caracteriza a existência dos sistemas vivos. Fica então a provocação de aprofundar esta trilha que nasce da relação entre os ambientes de aprendizagem e os espaços que entendemos como sendo educadores, que incluem, mas não se limitam, as estruturas formais de ensino : escolas instituições de ensino nível fundamental, médio, técnico e superior.


Mas….isto é conversa para outro momento!



Referências


MORAES, M. C. (2003). Educar na biologia do amor e da solidariedade. Petrópolis: Vozes.


MORAES, M. C. Pensamento eco-sistêmico: educação, aprendizagem e cidadania no século XXI. In http://www.ub.edu/sentipensar/pdf/candida/pensamento_ecosistemico.pdf. Acesso em 25/06/2020.

SCHMIDT, A. F (2003). Trilha da Vida e ambientes de aprendizagem: uma análise na busca de convergências. São Paulo. Dissertação de mestrado em Educação - Programa de Pós-Graduação em Educação e Currículo, PUC/SP.

Por: Angela Schmidt


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