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Astério e o Planeta Shopping

Astério dobrou a esquina e na primeira vitrine lá estava ele: o Smartcontrol SPS Demin Foreshopper Pegasus Pro Stelar 9X! Tão logo ele tivesse 9.000 potoks poderia ter o seu! E Astério se juntou a vários outros shoppers que olhavam a vitrine embevecidos, sonhando com a capacidade de ter, no braço, um dispositivo que planejaria toda a sua vida para que fosse feliz e consumisse o máximo possível!


Depois de algum tempo Astério sentiu um choque na sua barriga, era o seu controlador antigo avisando que estava na hora de trabalhar. Astério andou pelo meio das lojas e localizou o buraco do transporte, por onde entravam centenas de shoppers a caminho do trabalho. Ele entrou e nem reparou na multidão parada, bovina, esperando o trem. Todos conectados em seus controladores e nas projeções de imagens e sons em suas pupilas e tímpanos. O transporte chegou, todos se amontoaram dentro e mansamente partiram.


Depois de 12 horas fazendo tarefas repetitivas e chatas, cujo único propósito era aumentar o consumo do planeta, Astério foi para a academia. Ali conectou seu controlador na rede, e enquanto uma parede mostrava a série de exercícios que a classe deveria fazer, três emanavam imagens, sons e frequências com o objetivo de imprimir em suas vontades o desejo pelos mais variados produtos. Depois da academia Astério vagou um pouco pelas lojas, gastou os poucos potoks que ainda tinha até o próximo pagamento e retornou para seu cubículo.


Astério em geral se sentia feliz assim, apesar de de vez em quando sentir um vazio. E assim a vida ia. Até que um dia o planeta foi atacado por aliens que se comportavam como zumbis. Esses aliens matavam todos que encontravam, que passavam imediatamente a matar também. O único lugar seguro eram os cubículos. Não podiam mais sair. Alguns arriscavam a vida para manter os serviços essenciais funcionando e para entregar compras nos cubículos dos shoppers.


Os shoppers tentaram de tudo para conter os aliens, mas não conseguiam. Alguns, desesperados, saiam assim mesmo, pois precisavam ver lojas. Todos eram igualmente aniquilados quando topavam com os aliens ou seus mortos. Neste cenário de horror todo o sistema de vida do planeta Shopping começou a degringolar. Não podiam sair. Muitas famílias que nunca se viam foram obrigadas a conviver dentro de seus cubículos. Muitos continuavam trabalhando, do cubículo mesmo. Mas não havia mais potoks para pagar a todos. Alguns morreram de fome.


Astério ficou com medo, como todos os outros habitantes do planeta. No começo ficou muito assustado. Mas seu trabalho continuava, então não passou fome. Seu humor se alternava entre conformismo, medo, raiva, preguiça e algumas vezes felicidade por gostar do seu cubículo. Mas foi dando um vazio, como aquele que sentia antes, só que muito maior. Comia e dormia muito.


Um dia, sonhou com a sua mãe. No sonho, a mãe elogiava sua estrela na testa. Astério acordou, olhou no espelho e não viu estrela nenhuma. Mas lembrou que a mãe costuma dizer que ele tinha esse nome porque ela tinha visto uma luz em sua testa na primeira vez que olhou para ele.


No dia seguinte, outro sonho. Neste, ele estava perdido entre as lojas do planeta, olhou para uma vitrine e uma das telas disse: “É o seu coração que vai acender a estrela na sua testa!”. Ele passou o dia prestanto atenção no coração, mas só sentia ansiedade.


Naquela noite, o sonho se repetiu. Se repetiu por dias e dias. E Astério foi fazendo amizade com seu próprio coração. Percebeu que não estava sozinho no cubículo, que seu coração estava lá com ele. E o coração começou a falar com Astério.


O coração confortava, dava bronca ou simplesmente cantava com ele. Gradualmente Astério foi percebendo que precisava existir mais da vida além de trabalhar, malhar, comprar e dormir. Mas como? – perguntava ele ao coração – Como eu vou sair disso? Estamos no Planeta Shopping, toda a superfície é recoberta por lojas! Preciso comprar pra viver!


Astério gradualmente foi perdendo o prazer de comprar, perdendo o prazer de viver daquele jeito. Os potoks se acumulavam em sua carteira e ao mesmo tempo ele se sentia culpado por não consumir. Um dia, o coração o ajudou a relembrar da estrela na testa, novamente esquecido. Ele percebeu que, agora que falava com seu coração, poderia perguntar o que fazer.


- Basta pedir! – respondeu o coração – mas o caminho é longo mesmo assim. Astério não ligou, pediu assim mesmo. O coração assentiu. Ele olhou no espelho e pareceu ver um fraco brilho no centro da testa. Ao virar, viu uma linha iluminada no chão, indo em direção à porta. Ficou com medo.


Por alguns dias Astério encarava a linha, sabendo que era o coração pedindo para ele sair. Mas tinha muito medo. Até que um dia acordou e pensou “Basta! Prefiro morrer do que viver assim! Vou seguir a linha! E se encontrar aliens, morri...”


Astério saiu e começou a seguir a linha, que traçava um verdadeiro labirinto por todas as lojas. Aos poucos foi percebendo que a linha fazia exatamente o reverso de todos os caminhos que tinha feito na vida. Astério reviu cada vitrine, cada transporte. E, conforme não se desviava da linha, a luz na sua testa ficava mais forte. Os aliens apareceram, mas aparentemente tinham medo da luz na sua testa e se afastavam.


Seguindo esse caminho, Astério foi pensando na vida, recordando todos seus momentos. Percebendo o que tinha feito e como podia melhorar. Percebeu que sempre fizera o melhor que podia. Que só com a consciência do agora é que tinha como ser melhor, mas na ocasião não tinha essa consciência. O vazio foi ficando menor. E ele foi ficando em paz. Até que, finalmente, percebeu que estava pronto.


A linha acabou e um portal de luz se abriu à sua frente. Astério passou pelo portal e, em vez de lojas, se deparou com campos, céu, flores, brisa, pássaros. Não voltou mais. Não precisava comprar. Não precisava trabalhar. Não precisava malhar. Podia se dedicar só a ser feliz.


E você, o que tem feito para ouvir o seu coração e acender a estrela na sua testa?


Por: Pá Falcão

Para se inspirar mais:






Quando iremos mudar e parar de construir casinhas? - Por Simone Catalan










Um conto culinário - Por: Pá Falcão










Luz! - Pela conselheira Patrícia Carvalho









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