Bolas de Pelos

O que pode ser mais tolo do que querer, de presente de Natal, um negócio que é um rolinho que promete tirar pelos de animais das superfícies?


Assim me sinto, precisando/ansiando por limpar as superfícies.


Iniciei o ano com uma sensação de desesperança. Parece que eu estava prevendo que algo estranho iria acontecer. Anúncio da pandemia e aí veio a necessidade de receber no peito a porrada e absorvê-la, se reposicionar, buscar e aplicar tentativas e chegar a alguns acertos, erros e aprendizagens. Nem poderia imaginar que a chegada de duas gatinhas em casa seria conteúdo para mil analogias sobre este momento. Com elas, trancada em casa, fui retomando conceitos que sabemos mas nem sempre vivemos: o ritual da conquista é paulatino e disciplinado, há uma criação de rotinas, há a observação do comportamento, outra vez a tentativa com acertos e erros (a caixinha de areia passeou por vários locais da casa antes de acharmos o local mais confortável para elas...) e existem os PELOS! Sim... os PELOS... em todos os lugares, grudados nos móveis, embrenhados no tapete, flutuando no ambiente! São os elementos mais incontroláveis de toda esta situação.


Me encontro todos os dias, sem paz, varrendo, passando aspirador, lavando a roupa mais de duas vezes para tirar aqueles malditos pelos.


Me vejo, repetindo no ambiente, ações em vão... limpo agora e 3 minutos depois, lá estão os pelos novamente a se aglutinarem, formando estranhos elementos no chão. Me culpo “Quem teve a maldita idéia de trazer gatos para cá?”. Trago meu sentimento de incompetência: “Não é possível! Não consigo manter esta casa limpa...” e escuto o diabinho interno dizendo: “Ahhh deixa isso pra lá, vai se preocupar com outra coisa...” Dou um tapa no diabinho e respondo para mim mesma que não dou conta de viver em um lugar cheio de pelos. E aí, limpo, limpo, limpo e limpo mais... enquanto isso, o tempo passa... outras coisas aparecem para serem feitas e, precisando fazê-las, vão para a “to do list” e geram a sensação de que estou com meu tempo todo ocupado, sem precisar sentir, pensar e agir nas coisas que realmente importam...


Anseio pelo momento de parar tudo e me deitar no sofá para assistir uma bobagem qualquer na TV ou simplesmente “apagar” em um falso descanso. Amanhã inicia com a necessidade de limpar os pelos outra vez.


Limpar incansavelmente (verdade?) as superfícies, é para mim a maior prova que o desejo incontrolável de controlar é insaciável. É impossível de saciá-lo... e gera a necessidade da escolha entre se desesperar ou comprar o rolinho mágico, que promete praticidade. Não existe controle... existem sim as estratégias de lidar com o incontrolável, sem “estourar” a si mesmo.


Estou muito ansiosa em achar um rolinho também tão mágico que me ajude a colocar a exata medida de esforço no que importa, para sobrar energia para brincar com a gatas no final do dia.

Efeitos deste momento, onde as superfícies sujas estão escondendo o brilho dos pisos e a sensação gostosa de chegar em casa depois de um dia de limpeza...


Por: Lígia Mardiression

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