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Branca de Neve e a Pandemia


Era uma vez uma grande empresa multinacional. Era uma empresa de tecnologia, líder de mercado, fabricando desde as mais prosaicas tomadas e interruptores até motores de foguete. Seu presidente no Brasil, o Dr. Leopold tinha uma filha, Branca de Neve. Branca estava no último ano da faculdade de economia e ficou feliz com a oportunidade de um estágio na área de novos negócios na companhia do pai.


No seu primeiro dia de trabalho foi apresentada à sua gestora, Grunilda, que não estava nada feliz com a filha do chefe estagiando em sua área. Mas Branca tinha uma enorme boa vontade e queria aprender. Não se opôs quando foi encarregada das tarefas mais humildes: arrumar a sala de reunião, pegar cafezinho etc. Não chegava nem perto de saber sobre novos negócios.


No final do ano Branca foi efetivada, pois ficaria muito estranho mandar embora a menina que, além de ser filha do presidente, tinha executado impecavelmente todas as tarefas que tinham sido solicitadas. Branca ficou muito feliz, tinha se acostumado com aquela vida e ainda havia Floriano, um crush que às vezes aparecia quando ela estava arrumando as coisas na sala de reunião.


Com um salário um pouco melhor, Branca alugou uma casinha em um bairro distante, pois não queria depender do pai para sempre. Também percebeu que Grunilda não iria deixar que exercesse a função para a qual tinha sido contratada, analista de novos negócios júnior. Aos poucos, foi percebendo que precisava fazer alguma coisa.


Tinha feito uma faculdade de primeira e, de tanto ouvir o pai falar, conhecia bem os produtos e negócios da empresa. Também era uma mulher bem informada e começou a fazer uma análise da produção e negócios no Brasil. Quando chegou a época do planejamento anual, ela tinha um plano para aumentar a produção da fábrica de eletrônicos, e colocar no mercado 200% a mais de aspiradores de pó inteligentes que no ano anterior. O plano estava bem feito e fazia sentido.


Grunilda, como sempre, solicitou que Branca preparasse o material que iria para os diretores no encontro de planejamento. Branca incluiu seu plano, sem se identificar como autora.


Ela estava no hall do hotel, conferindo o coffee break, quando acabou uma das reuniões. As pessoas saíram animadas, comentando de quem seria aquele documento. Grunilda saiu também e fuzilou Branca com o olhar, em seguida sorriu e perguntou se estava tudo em ordem.


Na semana seguinte, a pandemia de corona vírus que estava assolando o planeta há cerca de dois meses atingiu níveis nunca vistos. O governo decretou quarentena geral. Os escritórios tinham que ficar fechados. Todos os funcionários foram mandados para casa, trabalhar em home office. Fábricas pararam a produção. Clientes pararam de comprar. Um verdadeiro caos.


Branca foi para a sua casinha, tão perdida quanto todos os outros. Foi demitida por whatsapp sentindo a satisfação de Grunilda ao fazer isto. Não queria recorrer ao pai. Ficou em casa.


Num primeiro momento, a preguiça venceu. Aproveitou para dormir e jogar vídeo game. Depois começou a contatar os amigos e se sentiu muito mal ao perceber que só ela tinha sido demitida. Não sabia o que fazer. Passava horas, horas e mais horas assistindo lives que depois de um tempo não agregavam mais nada, uma igual à outra. Navegava pelo tinder, mesmo sabendo que não ia poder se encontrar com ninguém. Quando perguntavam se estava tudo bem ela respondia que sim. Mas por dentro, era corroída pela raiva. Raiva de Grunilda, do seu pai, de Floriano, que desaparecera, de não ter colocado seu nome no plano. Passou a comprar on-line compulsivamente. Gastou quase tudo o que juntara e então passou a viver o mais frugalmente possível, sem gastar dinheiro em nada e fazendo uma refeição barata por dia.


Aos poucos, foi percebendo que precisava fazer algo para sair desta situação. Resolveu fazer uma lista do que tinha e do que não tinha.


Não tinha muito dinheiro, dava para viver mais uns 3 meses apertando o cinto. Não tinha o apoio do pai, que nem sequer ligara ao saber de sua demissão. Não tinha emprego. Não tinha namorado nem amigos que soubessem pelo que estava passando.


Tinha o conhecimento da faculdade e um ótimo conhecimento dos produtos e processos de seu antigo emprego. Tinha boa vontade e proatividade. Sabia como se relacionar, falar com as pessoas e tinha uma ótima rede de relacionamentos. Conhecia o que os clientes de sua empresa antiga queriam e como gostariam de ser tratados. Sabia que queria provar que podia ser uma mulher de sucesso. Conseguia ver para onde o mundo estava caminhando. Sabia gerenciar bem seus recursos e, apesar de ter sucumbido por um tempo, se considerava uma pessoa resiliente.


Depois de muito pensar, descobriu que os seus bens mais importantes eram conhecimento técnico e sete competências fundamentais: proatividade, relacionamento, foco no cliente, propósito, visão estratégica, gestão de recursos e resiliência.


Conhecia a política comercial da companhia e sabia que nem todos os clientes estavam satisfeitos com as grades fixas de produtos que a companhia oferecia. Resolveu criar uma startup de e-commerce, que facilitasse a vida dos clientes.


Sabia que não conseguiria sozinha. Resolveu que era importante para o seu propósito exercitar a humildade. Chamou alguns amigos e explicou sua situação. Precisava de sócios com urgência. Conseguiu facilmente o parceiro de tecnologia. Mas eles não tinham dinheiro para o primeiro pedido. Percebeu que precisava de capital. Nada que aquele amigo rico não topasse ajudar, principalmente depois que viu as previsões de lucro. Agora, a parte mais complicada: negociar com a companhia e achar concorrentes, substitutos e entrantes. Também conseguiu.


Em 6 meses seu e-commerce estava fazendo o maior sucesso. Pequenas lojas de bairro e até pessoas físicas que antes jamais poderiam comprar os produtos estavam muito satisfeitos. O dinheiro começou a entrar. Ela saiu na revista Pequenas Empresas Grandes Negócios e virou uma celebridade no mundo das startups.


Grunilda se torcia de raiva. Enviou o artigo para sua amiga Lindsay, uma "investidora" de Nova York que estava há tempos procurando maneiras de alavancar negócios com a companhia. Lindsay era famosa por investir e depois ficar com a parte do Leão, deixando os empreendedores originais para escanteio.


Pouco tempo depois, Branca recebeu o e-mail convidando para uma reunião. Lindsay sabia encher os olhos dos empreendedores. A promessa de morar em Nova York, negócios internacionais, glamour... Branca era muito competente, porém não tinha muita experiência topou.


Foi só assinar o contrato e perdeu completamente o controle da sua startup. Lindsay trouxe toda uma nova leva de fornecedores, baratos, porém nem sempre de primeira qualidade. Os clientes antigos começaram a sair e um novo perfil de clientes se configurou. Branca, cada vez mais desgostosa, voltou ao vídeo game, às compras e ao tinder.


Até que um dia dormiu na frente da televisão e sonhou com suas 7 competências. A proatividade dormia, completamente inconsciente e roncava auto. O relacionamento tentava falar e não conseguia, estava mudo. O foco no cliente tentava seduzir clientes, mas sem dar o que eles queriam. O propósito se achava melhor que todo mundo, olhando tudo de cima. A visão estratégica queria impor suas idéias e brigava com todo mundo. A gestão de recursos distribuía dinheiro para quem passava e a resiliência estava com rinite, com dor de cabeça e nariz escorrendo.


Todas muito infelizes. Olharam para Branca e perguntaram: Branca de Neve, o que você precisa para acordar? E Branca respondeu: Um beijo de cada uma. A pro atividade a beijou, e veio uma ideia de uma nova empresa. Quando recebeu o beijo do relacionamento, sabia quem chamar para essa nova ideia. Ao ser beijada pelo foco no cliente, ficou claro que precisava começar perguntando para os clientes se era isso mesmo. O beijo do propósito renovou sua fé na vida. Já com o beijo da visão, conseguiu pensar em um plano. O beijo da gestão de recursos fez com que ela se lembrasse que agora tinha o dinheiro da venda da parte de Lindsay e que podia vender o restante de sua parte na startup antiga. E o beijo da resiliência fez com que realmente acordasse, para por mãos à obra.


Branca de Neve acordou sozinha. Floriano sumiu muito antes e não teve nada a ver com isso. Acordou, abriu uma nova empresa e foi feliz até a próxima crise.


Por: Pá Falcão

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