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(Não??) Temos de voltar às aulas!

Desde meus primeiros movimentos no campo profissional a educação, a aprendizagem, os processos de construção do conhecimento, sempre estiveram no centro de meu interesse e atuação. Por conta disto, as coisas ligadas ao mundo da educação, das escolas, do aprender estão no foco de minha atenção de forma permanente.


Como não podia deixar de ser, tenho acompanhado os impactos da pandemia na educação, e com isso, no universo da educação formal - escolas, institutos técnicos, universidades. Desde o início da fase de pandemia a questão das aulas já ganhou destaques.


Autor: Wokandapix por Pixabay


Alguns do dilemas que acompanhei bem de perto na fase inicial da quarentena, em meados de março e que seguem até o momento:


Por parte do poder público:

  • Suspende aulas! X Não suspende!

  • Suspende a partir de que idade?

  • Instituições de ensino públicas e privadas estarão sujeitas às mesmas regras? Sim!! X Claro que não!!

  • As instituições de ensino são prioridade para retomada ao presencial, pois são serviços essenciais à população. X As instituições de ensino podem permanecer fechadas mais um pouco e é mais importante que a pessoas voltem a circular em público para terem acesso à shoppings, jogos de futebol, bares, lojas, barbearias…..

  • Vamos retomar as aulas e apostar na imunidade de rebanho e que ela não fará mais vítimas. X Admitimos que ainda não temos conhecimento suficiente para liberar de forma segura a volta às aulas, por isso vamos seguir com a suspensão.

  • Acreditamos que a testagem de professores, funcionários e alunos é suficiente para nos dar segurança na decisão da retomada ou não das aulas presenciais. X Sabemos que, mesmo com a testagem, os resultados ainda não podem ser tidos como única coisa a se avaliar para o retorno das atividades presenciais.

  • Vamos retomar às aulas antes da vacina aos trabalhadores da educação X Vamos retornar às aulas somente depois que os trabalhadores da educação forem vacinados com a vacina mais confiável disponível.

Por parte dos pais:

  • Mantenho meu filho(a) na escola X Meu filho(a) não vai mais a escola!

  • Como ajustar a rotina para que a criança/jovem fique em casa e seja cuidada?

  • Com vou oferecer as refeições que meu filho(a) tinha na escola?

  • Eu vou tirar de letra meus estudos da faculdade mesmo estando em casa e agora com meu filho(a) junto de forma integral X Meus Deus, socorro!! Como vou estudar e ainda me adaptar a rotina da casa agora com todos por aqui, filho(a), outros familiares….


Autor David Mark por Pixabay


Por parte do professores-diretores-coordenadores pedagógicos:

  • Vamos suspender por enquanto as aulas e neste período seguir trabalhando para encontrar uma solução de não perder o ano letivo e retomar mais a frente, seja online ou voltando ao presencial! X Vamos suspender as aulas em definitivo e dar o ano letivo como encerrado.

  • Vamos migrar de imediato para aulas online, pois nós e os alunos temos todas as condições para isso! X Vamos migrar para as aulas online, mas não temos formação para este tipo de ensino e não sabemos se os alunos têm as estruturas e condições necessárias para aprender desta forma!!

  • Vamos migrar para aulas online e todos os alunos são obrigados a aderirem e este formato, senão perderão o ano letivo! X Vamos migrar para aulas online, mas suspeitamos que nem todos os alunos têm condições de acompanhar a escola/universidade neste formato, então não sabemos como fica a questão de aproveitamento ou invalidação do ano letivo!

  • Todos os professores são obrigados a oferecer aulas online a seus alunos…..Sabemos que nem todos os professores têm condições de oferecer aulas online seja pelo seu conhecimento desta modalidade, seja pela natureza de sua matéria.

  • Vamos retornar às aulas presenciais e as medidas de segurança e isolamento serão suficientes. X Vamos retornar às aulas presenciais, mas eu sei que estamos em risco de contaminação pois é impossível garantirmos o atendimento às medidas de segurança sanitária.


Tenho observado que agora, nas últimas semanas ganha força a discussão sobre o retorno às aulas. Pessoalmente vejo uma questão complexa, que envolve muitos aspectos, para além da questão do aproveitamento do ano letivo, do preparo do ambiente físico das escolas, universidade e afins; da vontade de alunos e professores em retornarem ao fluxo normal do mundo escolar. Tenho em meu campo de visão e análise outros pontos como:

  • O risco de transmissão a que ficam expostos todos os atores de uma comunidade escolar: alunos, professores, funcionários da escola, pessoas do transporte dos alunos, familiares de todas estes grupos de pessoas, fornecedores da escola (limpeza, alimentação, informática, etc), as pessoas que entram em contato com esta comunidade escolar em outros momentos de sua vida cotidiana.

  • O fato de que para uma grande parcela da população a escola está muito além de ser somente o lugar de ensino convencional assumindo papel de fonte de alimentação, suporte emocional, proteção à abusos. E, o fato de não terem acesso a este lugar, retira da vida de crianças, jovens e adultos uma importante estrutura de proteção!

  • A necessidade que temos, enquanto sociedade, de começarmos a viver uma nova etapa que inclui por um tempo que não sabemos, a presença do vírus, e que nos obriga a criar novos processos e hábitos para retomar fluxos vitais, como as aulas, de uma forma mais saudável e sensata possível;

  • A desigualdade social que ficou escancarada com a pandemia…. e que, como já disse, tem nas escolas e outras instituições de ensino, ilhas de apoio e acesso ao que deveria ser garantia de todo cidadão, mas que de fato é privilégio de uma minoria. Manter as escolas fechadas e o ensino à distância exclui, ainda mais, grande parte da população que não tem acesso aos equipamentos, a conectividade, não tem ambiente em seu local que permita qualquer estudo. Retornar as aulas de uma forma rápida e mal planejada, expõe todos ao risco de vida e a serem agentes de transmissão do vírus.

Pensar sobre esta questão da volta às aulas também é para mim uma oportunidade e uma provocação para o olhar sistêmico, para uma análise crítica da nossa realidade. Nos convida a termos coragem de encarar essa realidade feia e injusta para a maioria dos brasileiros.

De minha parte já digo que não tenho uma resposta única a este dilema, acredito que são soluções regionais e que devem ser flexíveis, abertas a avanços e recuos, tendo o Cuidado com a Vida como centro e guia.


De minha parte, deixo um convite para que você também olhe com atenção para esse dilema, aproveite para perceber como ele se espalha em diversos níveis pelos processos sociais, e, principalmente, como ele expõe nossa urgente necessidade de mudança de forma de pensar e de viver, chamando para um modo mais sustentável que traga qualidade de vida a todos e não só a uma pequena parcela da sociedade.


Por: Ângela Schmidt

Para se inspirar mais:








Aprendendo a aprender e (re)descobrindo formas de Viver - de Angela Schmidt













Como estão as nossas relações? - Pelo Reinaldo Rachid














Mudar, Mudar, Mudar! - Pá Falcão









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