Perdido no personagem – Um conto sobre Janice.


Em 1981, nasceu Janice em São Paulo, sendo a filha mais jovem de Pedro e Maria que tiveram mais dois filhos, José e João. Pedro era caixa em uma loja de departamento e Maria costurava para suas clientes que ficavam encantadas com suas idéias e capricho no acabamento de suas criações. Ambos trabalhavam incansavelmente para alimentar toda família e permitir que os filhos estudassem, pois sabiam que o estudo era o caminho para quem quisesse vencer na vida.


Logo na adolescência, Janice começou a se destacar nas classes de aula por onde passava, chamando a atenção dos pais e dos irmãos por sua inteligência e por excelentes notas que obtinha nas escolas e cursos que fazia. Ao perceber esse potencial, Maria se empenhou para a que filha tivesse condições de ser aprovada na escola técnica para que, ao final do curso, pudesse exercer uma profissão e trabalhar. Janice concluiu o curso técnico de eletrônica em primeiro lugar, deixando os pais orgulhos com a perspectiva do sucesso da filha que confrontava com o padrão familiar, sendo a primeira pessoa que se dedicava à busca do conhecimento acadêmico.


Nos bancos escolares, os amigos de Janice ficavam curiosos com seu desempenho, pois Janice não se esforçava tanto quanto eles. A diferença era que Janice colocava toda sua atenção no momento da aprendizagem, não deixando passar nenhuma dúvida sem esclarecimento. Ela não deixava para aprender sozinha em casa enquanto realizava suas tarefas escolares ou estudava para os exames.


Janice foi para a faculdade de engenharia e já chegou se destacando, pois, grande parte do conteúdo aprendido nos primeiros semestres já havia sido estudado no curso técnico. Após 5 anos de graduação, sem muitas surpresas, os pais de Janice celebraram sua formatura em Engenharia Elétrica e a conquista do primeiro lugar geral em rendimento escolar de todas as engenharias da Universidade.


Durante o período escolar e nos primeiros anos de trabalho, Janice conheceu pessoas bem diferentes do seu círculo familiar e percebeu que todas tinham clareza dos objetivos pessoais e buscavam o sucesso profissional, enquanto ela, vindo de uma estrutura familiar humilde, simples e de dificuldades financeiras, precisava construir seu próprio conceito de sucesso e assim começou a sua jornada profissional. Janice acreditava que suas conquistas até o momento eram provenientes de fluxo natural das coisas, pois não teve grandes dilemas, tomando decisões que poderiam mudar sua vida. Como ela dizia, apenas seguiu o fluxo.


Com o passar dos anos, Janice começou a conviver com colegas de trabalho que tinham hábitos, padrões e comportamentos diferentes dos seus, provavelmente associado à uma estrutura familiar “melhor” que a sua e isso a deixava preocupada e atenta à sua forma de se mostrar aos outros. Durante as reuniões na empresa em que trabalhava, ela começou a perceber que suas ideias nem sempre eram aceitas e que muitas vezes havia um jogo político em que estava inserida. Assim, rapidamente ela começou a fazer uma leitura do contexto, do ambiente e das pessoas, identificando os interesses em jogo e foi se adaptando a cada situação para nunca errar, buscando construir respostas que as pessoas gostariam de ouvir, mesmo que existissem outras possibilidades para uma mesma questão. Entrou na esfera política presente na organização e que agora era ouvida, pois estava dizendo o que era o certo. Acreditava que estava indo bem.


Três anos se passaram e Janice se qualificava como uma profissional que estava pronta para assumir um cargo de liderança. Tentou uma oportunidade na própria empresa e foi selecionada para o cargo e, a partir de agora, teria um time de 6 pessoas para liderar. Ela assumiu o cargo e na sua primeira reunião disse que o departamento iria dar um salto dentro da empresa e que seu principal objetivo era mostrar a relevância das atividades que o setor executava. Tentou colocar em prática tudo que aprendeu na faculdade, agregando novos conhecimentos que no início encantava os olhares do seu time e de alguns pares. Algumas atividades que eram vistas como simples e de domínio da equipe passaram por uma revisão que as deixaram mais complexas, tirando o time da zona de conforto. Nesse aprofundamento teórico e com seu olhar crítico, começou a perceber que existiam falhas e propôs diversas melhorias de processo. O clima no departamento começou a ficar ruim, pois tudo que a equipe fazia passou a ser controlado e criticado por ela.


Em uma reunião com outros gestores, Janice apresentou um diagnóstico que mostrava os pontos de melhoria identificados. Um dos gerentes, com mais tempo de empresa e mais experiente que ela, fez uma pergunta inesperada e a deixou com certa insegurança ou medo de dar a resposta, fazendo-a relembrar do jogo político que viveu logo que entrou na organização. Realmente, ela não convenceu os demais e voltou bem triste e pensativa para sua área. Decidiu que precisava mudar de trabalho, ir para outra empresa que valorizasse seu conhecimento técnico.


Assim, ela realizou alguns contatos e foi convidada para participar de três processos seletivos. Em cada um, ela procurava analisar o perfil da vaga e se conectava com pessoas que trabalhavam na empresa para entender o jeito de fazer as coisas daquela organização. Como ela queria muito ser aprovada e mudar de patamar na sua carreira, Janice definira uma série de características que precisaria demonstrar durante as etapas de cada processo e novamente mostrava uma autoimagem que acreditava que o entrevistador gostaria de ver. Janice avançou em apenas um processo, mas na entrevista final ela soube que não conseguiu o trabalho que tanto amou.


Voltando para o dia a dia na empresa em que trabalhava, desiludida com o mercado de trabalho, ela começou a fortalecer a crença de que as oportunidades eram para poucos e que ela precisava se comportar de maneira igual aos colegas que recebiam aprovações, feedbacks positivos e promoções internas. Janice começou a ter comportamentos ambíguos e tudo que fazia tinha o objetivo de obter a aprovação que estimava tanto.


Dois anos depois, um novo CEO chegou para dirigir a empresa e percebeu que precisava modernizar processos. Em uma conversa com Janice, o CEO percebeu que, ao invés de trazer sua visão pessoal sobre as perspectivas de mudança, ela fazia perguntas e elaborava uma resposta pensada para agradar o novo presidente. Ele teve a certeza de que faltava uma visão crítica em Janice e que ela não estaria no grupo à frente da transformação da empresa. Janice foi demitida e decidiu procurar uma ajuda de um profissional para ser recolocada no mercado.


Em algumas sessões, o mentor de Janice investigou sua estrutura de personalidade, analisou suas narrativas construídas e seus padrões de comportamento, convidando-a para algumas reflexões:


- O sucesso de Janice confrontava com seu padrão familiar e isso abria caminhos para a autossabotagem, embora no nível inconsciente.

- Por se sentir diferente do núcleo familiar, Janice sentia a necessidade de pertencer à um grupo com a qual se identificava.


- Durante o processo, Janice revelou ao mentor que sentia atração sexual por outras mulheres e acreditava que isso a tornaria ainda mais diferente das pessoas com as quais convivia.


- O comportamento de Janice oscilava muito entre a defesa e a aceitação pelo outro, sendo percebida como enigmática para alguns colegas.


- Janice percebeu que o conhecimento técnico, tão importante no início da sua carreira, estava perdendo força para outras competências relacionais que precisaria desenvolver.


O trabalho foi sendo realizado e Janice percebeu que precisava reencontrar com suas raízes e ressignificar vários capítulos da sua história pessoal. Na busca pela competência de relacionamento, ela constatou que precisava aprender a se relacionar consigo mesma, antes de mudar a forma de se relacionar com o outro. Foi uma jornada ao autoconhecimento onde ela descobriu seus valores pessoais, seu propósito de vida, seus dons e investigou também o que lhe trazia sensação de felicidade e tristeza. Foi um trabalho difícil, pois durante toda sua vida, Janice aprendeu que para ter sucesso no trabalho deveria ser firme, decidida, racional e que o sentir era algo para os fracos.


À medida que o trabalho foi se desenvolvendo Janice constatou que, em vários momentos da sua vida pessoal e profissional, assumiu vários personagens que escolhera para ser aceita ou receber aprovação do outro. No entanto, todos esses personagens eram construídos sob a perspectiva de Janice sobre a expectativa do outro e com o tempo foi se descaracterizando da pessoa que era, pois é bem mais difícil conhecer profundamente o outro, quando não se conhece a si mesmo. Com a ampliação de suas referências ao longo do tempo, novos personagens iam ganhando espaço e alguns eram extremamente frágeis que acabavam por transformar todo o conhecimento técnico em insegurança, aumentando a sensação de insuficiência.


Janice estava perdida nos personagens que criara e começou a se conscientizar que, embora a vida nos demande múltiplas funções, existe um personagem que constitui o eixo central de tudo que se faz e que deve orientar sua maneira de viver: a personagem JANICE. Quem realmente era a JANICE?


Pode-se aprender coisas novas, mudar comportamentos, desenvolver novos relacionamentos, mas tudo isso deve se conectar com esse personagem central de si mesmo. A falta da integridade, de não se permitir SER quem se é pode ser relacionada como uma das principais causas da não felicidade na vida de muitas pessoas.


Janice se desenvolveu a partir do autoconhecimento e encontrou seu estilo próprio de gestão alcançando o sucesso que ouviu dizer que existia.


Ao invés de culparmos o meio que estamos inseridos, a falta de oportunidade, a família e reforçar a narrativa de sermos vítimas das circunstâncias, eu prefiro reconhecer que as diferenças existem, pensar que temos escolhas e que abrir-se para a mudança pessoal é o mais importante passo para o crescimento.


É preciso confrontar o automatismo, a repetição de padrões e atenção para as oportunidades. Muitas vezes, nós não estamos aptos ou podemos provocar as mudanças que queremos no curto prazo, mas ter a consciência do que precisa ser transformado é o primeiro passo para planejar as ESCOLHAS do futuro que se conecte ao seu personagem central – você mesmo.


Por: Reinaldo Rachid

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