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SIM, É POSSÍVEL!

Baseado em um trecho da história da Vila Novo Ouro Preto. Um exemplo de cidadania e ação!


Durante dez anos da minha vida trabalhei em um projeto social e convivi com a comunidade da Vila Novo Ouro Preto em Belo Horizonte. Uma comunidade na regional Pampulha, situada num pequeno vale da Bacia da Pampulha.


O complexo arquitetônico da Pampulha é um dos maiores cartões postais de Belo Horizonte. Ele foi inaugurado na década de 40 e projetado por Oscar Niemeyer, sendo uma das mais arrojadas realizações do governo de Juscelino Kubitschek. O complexo rompe com os traços conservadores da época, sendo considerado uma revolução na arquitetura, com repercussões internacionais.


Infelizmente, na atualidade, a poluição da lagoa traz diversas dificuldades para preservação desse patrimônio. Para sanar esse problema seria fundamental a recuperação de toda a bacia hidrográfica da Pampulha que conta com cerca de 40 córregos das regiões de Belo Horizonte e Contagem.


As nascentes de um desses córregos se localizam dentro da Vila Novo Ouro Preto/BH, comunidade, que começou a ser ocupada em 1966, registrando um crescimento populacional vertiginoso a partir de 1975 e nos anos 90 teve um boom que praticamente dobrou a sua população. Em 1997 os moradores da vila tomaram consciência da existência das nascentes, que representa 1% das águas da bacia da Pampulha e que corria no mesmo lugar onde a população interna e externa a Vila Novo Ouro Preto descartava o seu lixo e esgoto. A situação era alarmante, principalmente nos períodos de chuva, quando o volume das águas aumentava, trazendo lixo e esgoto para dentro das casas. A grande quantidade de animais como ratos e baratas, riscos de desabamentos, doenças oriundas pela falta de saneamento e devido ao excesso de umidade, assim como a falta de áreas de lazer, eram alguns dos problemas da comunidade.


A ocupação desordenada gerava um grande risco geológico tanto nas áreas de baixada como nas de encosta, 90% da Vila Novo Ouro Preto residia em espaços de risco eminente ou alto risco e os outros 10% estavam expostos a outros tipos de riscos. Portanto, era necessárias melhorias de infra-estrutura, de educação formal e complementar, de geração de riquezas, de reestruturação ambiental, reassentamento, entre outros.

Essa era a história da Vila Novo Ouro Preto até 1997, quando sua população cansada de esperar, e entendendo que ela mesma poderia mudar a sua realidade, resolveu agir. A comunidade descruzou os braços, conseguiu com que a prefeitura cedesse botas, luvas e carrinhos, e realizou o seu primeiro mutirão retirando, durante um final de semana, três toneladas de lixo do córrego. O “descruzar dos braços” estabeleceu uma forma, plena e participativa de exercer a democracia, uma união do Poder Público com um Governo Cidadão.


Já na primeira ação, a comunidade colheu os primeiros resultados: nenhuma casa sofreu com inundações durante o período de chuva que se iniciou logo em seguida, fator que serviu de motivação para a continuidade das ações. Com isso, diversos outros mutirões foram realizados, resultando na retirada de aproximadamente 150 toneladas de lixo da Vila que por conseqüência, não foram parar na Lagoa da Pampulha. Estimam-se ainda um resultado ainda mais significativo, se considerarmos à mudança de hábito da população.


Desde então muitas ações foram e vem sendo realizadas e uma ampla rede de apoio com instituições de ensino e organizações foram estabelecidas.


Por meio da mobilização social da comunidade da Vila Novo Ouro Preto muitos resultados estão sendo alcançados tais como diminuição do número de ratos e baratas, erradicação dos casos de dengue na comunidade, modificação dos hábitos dos moradores, caminhão de coleta do lixo, melhoria da qualidade de vida dos moradores, elaboração do Plano Global Específico da Vila Novo Ouro Preto com seleção das pessoas da comunidade para trabalharem na pesquisa de campo, cerca de oito milhões de reais captados por meio de orçamento participativo e pelo Fundo Municipal de Defesa Ambiental para as obras realizadas na comunidade tais como: recuperação da nascente, contenção de encostas e recuperação total do córrego da cidadania na Avenida Hum e rua Luiz Lopez onde um dos objetivos considerado utopia foi alcançado: a volta dos peixinhos, pássaros e borboletas etc.

Por meio da história da Vila Novo Ouro Preto, podemos observar que a partir da mobilização, determinação, vontade e ação da comunidade muito pode ser conquistado: uma gestão cidadã e compartilhada, sonhos realizados, preservação e melhoria do meio ambiente, melhores condições de vida, auto-estima, etc...


“Os moradores da Vila Novo Ouro Preto, sob a liderança de Edina Barbosa, lutaram e conseguiram uma vila melhor para viver, mas também lutaram para que suas nascentes e seu córrego fossem preservados e não fossem eles a poluir a lagoa de todos.” Flávio Carsalade (BH. A cidade de cada um. Pag. 86, 10 ed, Pampulha).


Segundo os moradores, é uma nova maneira de resolver os problemas da cidade: “O descruzar dos braços” - forma de exercer a democracia plena e participativa = Poder Público + Governo Cidadão, em que o cidadão reconhece que o “poder emana do povo, que o exerce através de seus representantes eleitos ou diretamente”. O caminho: buscar junto ao poder público, ações que melhorem o modo de viver, com ação local e visão global.


São as pequenas nascentes que formam os grandes rios como o Flor D’água, Sarandi, Ressaca, Lagoa da Pampulha, Rio das velhas e o nosso grandioso e disputado: Rio São Francisco, do qual somos contribuintes. “Só se faz cidadania com a união e solidariedade de um povo” Edina Teixeira Barbosa.

Essa é uma das histórias que tive o prazer de ir conhecendo e vivenciando ao longo dos dez anos de atuação no Projeto Social. São ações como essa que me inspiram a continuar acreditando que é possível criar mais do que um novo “normal”, que é possível criarmos o futuro que realmente desejamos.


Acervo fotográfico e documental fornecido pela Líder Comunitária Edina Teixeira Barbosa. Por quem tenho um imenso carinho e muita gratidão de diversos conhecimentos compartilhados.


Por: Simone Catalan

Este artigo está relacionado com os seguintes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS):














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